À minha cidade eu mudava o futuro

À minha cidade eu mudava o futuro. Não lhe mexia no passado. Não lhe mudava o sítio. Deixava-a onde está.
Mudava-lhe o espírito. Começava pelo mais difícil. O espírito anda pelas ruas e está nas pessoas. É o espaço público.

Mudava o planalto para alfange e a Ribeira para as Portas do Sol. Misturava-as.
Usava tudo o que há, mudando os sítios. Baralhava e voltava a dar.
Não me preocupava em criar segmentos, pólos disto ou daquilo - fazia de tudo coisa da cidade inteira, em qualquer edifício e em qualquer esquina. Punha a cultura pelo meio. E ligava a cidade. Pelos sítios mais bonitos as praças, os jardins, o Verde e o Rio, S. Bento encostadinho à Rafoa, ali mesmo à beira das Caneiras...
Integrava tudo com todos, de modo a que cada um falasse com amor da NOSSA terra.
Claro, não fazia das ruas império de carros, como gostam de fazer os planeadores que semeiam túneis, viadutos e canibalizam a cidade. Ou fazem os cidadãos que, com os carros, privatizam a seu favor os passeios da Cidade.

Depois mudava-lhe as portas. Abria-as. Escancarava-as. Ao que está próximo e ao que está longe. Convidava os vizinhos. À volta há muitos. Quantos? - conforme a escala. Do lado de cá e do lado de lá do Tejo. Pensava também nos de Lisboa e do Porto; nos de Salamanca , Barcelona e nos de Madrid.
Os tempos são demasiado provincianos, é verdade. Mas eu insistia numa cidade central, pequena mas muito cosmopolita, culta, campestre, cheia de recantos mimosos. Corria pelos campos do Concelho e coleccionava fontes, chafarizes e pelourinhos e histórias de pessoas que deixaram de ser apenas gente.
Aproveitava o ar livre no exercício da liberdade de ser quem somos. Insistia numa cidade que fosse grande por ser o tempo em que tivesse gente dentro. O que eu mudava para aqui chegar!...

Manuela Marques
nº2 na lista à Câmara Municipal