Cooperação como alternativa ao paradigma actual

   Vivemos numa sociedade em que somos desde muito cedo incentivados a competir uns com os outros, de uma forma que se poderia dizer "obsessivo-compulsiva". Com que finalidade? 
   Poderá até existir, naturalmente, uma certa dose de competição intrínseca à espécie Homo sapiens,ainda que os modos de vida sejam muito diversos ao longo da história e através da geografia. No entanto, o que acontece quando ultrapassa a necessidade e se torna desajustada?

   De uma forma muito genérica, competimos porque desejamos as mesmas coisas que outros também desejam. Esses outros estão a concorrer connosco pelo mesmo objectivo ou recurso. Portanto, falamos de rivais, que não têm de ser propriamente inimigos. Pensemos numa partida de futebol, existem duas equipas adversárias que estão a competir amigavelmente pelo mesmo objectivo: ganhar aquele jogo. Não são inimigos mas rivalizam, uma vez que, só uma equipa pode ganhar a partida. No entanto, também sabemos, que de uma atmosfera amigável se pode facilmente derrapar para uma competição desajustada. Como é natural as emoções podem estar à flor da pele e os jogadores podem manifestar a sua agressividade de forma desadaptada, podendo agredir o concorrente. Acreditamos que este é um exemplo de quando se ultrapassa a necessidade e o fair-play para entrarmos na competição desajustada.

   Este tipo de fenómeno ilustra de uma forma simples aquilo que acontece na sociedade actual mas de forma amplificada. O enaltecimento de um modo de vida mais competitivo em detrimento da cooperação. Facilmente associamos a competitividade ao paradigma capitalista de consumo desenfreado. Somos pressionados a consumir porque se assume que ter dinheiro e acumular bens é sinónimo de sucesso e felicidade. Não defendendo hipóteses "românticas" de que o dinheiro não traz felicidade, a verdade é que a acumulação de dinheiro e bens materiais não nos garante necessariamente a felicidade. Embora exista a crença disseminada, perpetuada de alguma forma pela sociedade consumista, que maior consumo, maior aquisição de bens, significa maior bem-estar e ser-se bem-sucedido na vida. No entanto, não é isso que os estudos científicos sugerem.

   A competitividade está então impregnada em todos os sectores da nossa vida quotidiana. Por questões pragmáticas escolhemos a sua expressão na Educação, ao nível do comportamento das empresas e dos países.

   Uma das formas que o sistema de ensino actual transmite o culto da competição para as crianças e jovens é através, por exemplo, da avaliação individual, que é algo punitiva.    Parece-nos óbvio que todos querem ter a melhor nota, que está sempre sujeita a comparação com a nota dos colegas. Se não tiverem positiva, muitas vezes devido a dificuldades familiares e económicas, os alunos ao chumbarem de ano podem ter uma integração difícil junto dos colegas. Há aqui um estímulo para as crianças se habituarem a tentar "ser as melhores". Para o psicólogo e linguísta Noam Chomsky[1] isto molda o caráter, muitas vezes, no sentido de querer derrotar os outros. Por este prisma estamos a tentar fazer com que as pessoas não lidem bem com o sucesso dos outros [Chomsky]. Porém, esta internalização de um sentido de competição começa em casa, sendo reforçado no sistema educativo e que permanece, muitas vezes, no contexto de trabalho. Importa saber como podemos melhorar o nosso sistema de ensino para que as crianças percebam que a vida não precisa de ser uma competição desregrada.

   Nas faculdades de economia e de gestão é frequente (se não obrigatório) estudar e seguir um dos principais economistas neoliberais, Michael Porter. Este sugere para o crescimento económico a competição entre empresas rivais, que vão tentando tudo para adquirir vantagens competitivas, de forma a conquistar mais consumidores garantindo assim a sua sobrevivência no mercado livre[2]. Com base nestes ideais, vão-se formando gestores e economistas a pensar que é inevitável uma postura de "vale tudo" no mundo empresarial. Essa postura manifesta-se através de uma tendência para a falta de regulação, competindo através de baixos salários, de fugas aos impostos e às leis.

   Para além das empresas podemos encontrar a competição a dominar os comportamentos a nível dos países. Ainda sob a visão de Michael Porter[3], os governos devem encorajar as empresas a aumentar as suas aspirações e devem evitar regular a competição. E o que vamos assistindo ao longo da História é a disputa e conquista de territórios e de recursos naturais, demonstração de poderio militar em relação a outros (veja-se o caso da guerra na Síria). Apreciemos também o facto do Produto Interno Bruto (PIB), considerado normativamente como o principal indicador de desenvolvimento de um país, mais parecer um ranking em que os países tentam estar nos lugares cimeiros. Todavia, sabemos que o PIB não expressa a verdadeira riqueza de um país.

   Se a competitividade é amplificada pelo paradigma capitalista, como podemos aligeirá-la, sabendo desde já que é impossível aboli-la? Consideremos uma visão cooperativa. Cooperar é colaborar num projecto comum unindo esforços para concluir a construção do mesmo. Pressupõe ir além de si-mesmo, ou seja, ser-se empático; ser altruísta e solidário. Assim, como contrabalançá-la com o paradigma competitivo actual? Assumimos que não é tarefa fácil, visto que o acto de consumir não pode ser erradicado das nossas vidas. O consumo e a ideia da sua garantia de sucesso, bem-estar e de felicidade está massivamente generalizado.

   Propomos que se encontre um modo de vida assente na cooperação e no respeito mútuo, cultivando a Ética como um ideal colectivo. Para tal é necessário estabelecer uma aliança com aqueles que querem e são capazes de comunicar entre si, atravessando as divisões das crenças e da ideologia e ultrapassando as limitações dos interesses individuais e materiais.

   Aposta numa Educação que integre valores éticos acima referidos através: da fomentação do trabalho em equipa; da responsabilização individual nas tarefas e na relação com os pares; tutorias com colegas mais experientes incentivando-os a apoiar os colegas; facilitar recursos para evitar a reprovação do ano escolar; realização de actividades na comunidade que visem a solidariedade social.

  Ainda dentro do quadro económico actual é possível conquistar alguns avanços em termos organizacionais. Fazer com que, por exemplo, se garanta que as empresas não usam a "responsabilidade social da empresa" para mascarar práticas pouco éticas. Que proporcionem condições de trabalho mais favoráveis, tais como: melhores salários; férias; folgas; espírito de entreajuda entre colegas e as chefias. Contudo, há grandes entraves para que esses avanços sejam duradouros pois é próprio do sistema capitalista derrubar todos os obstáculos à formação do lucro e à sua acumulação.

   Por último, sugerimos que a nível dos países se fomente uma política de ajuda económica e cultural a países com maiores dificuldades. Acreditamos ainda que o PIB não deva ser o indicador por excelência do desempenho económico de um país. O Índice de Desenvolvimento Humano, que junta esperança média de vida e educação na equação do desenvolvimento é um passo em frente, mas nele o PIB, no seu cálculo atual, tem um peso significativo. Em nossa opinião, devem ser utilizadas em articulação outras formas de avaliação como a FIB - Felicidade Interna Bruta. A humanidade merece conquistar sociedades que não se guiam pelo lucro de alguns mas pelo bem-estar comum e de cada pessoa.

"Para o lugar da velha sociedade burguesa com as suas classes e oposições de classes entra uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos" Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friederich Engels, 1848.

Texto retirado de https://acontradicao.wordpress.com

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