Sobre a Democracia, como algo a defender

 As construções humanas são mortais, perecíveis: têm início, meio, e fim. Línguas faladas e escritas caem em desuso, civilizações grandiosas degradam-se e desaparecem, cidades importantes deixam de o ser.

  A democracia é uma construção humana, e como não é excepção a esta regra, está sujeita a ter um fim. Não estando garantida-por-si-só, o seu estado depende da nossa acção e do nosso cuidado.

  Este é um ponto importante do texto: a simples observação de que o nosso sistema democrático não está garantido, pode ruir.

 Ultimamente têm-se verificado fenómenos que constituem visíveis ameaças à democracia - populismos, desinformação, ascensão de movimentos segregadores, desinteresse generalizado pela vida em comum.

  Coloca-se então a questão: Como temos cuidado do nosso sistema democrático?

  Existe um afastamento geral da política, que é olhada com desconfiança e à distância. Política que muitas vezes se reduz ao espectáculo de entretenimento produzido por alguns meios de comunicação. Política marcada ao longo dos anos por episódios vergonhosos de corrupção e falta de uma ética solidária. Política mais vezes regida por interesses obscuros que pela vontade de criar paz, bem-estar e prosperidade. Esta maneira de olhar a política tem que mudar, e portanto torna-se necessário reinventar a forma como interagimos com essa dimenção das nossas vidas.

 Está pobre a nossa cultura democrática, as pessoas conhecem pouco o funcionamento dos órgãos que garantem a democracia e muito pouco o trabalho que lá se faz. Poucas vezes são chamadas a discutir os assuntos - e mesmo que os discutam entre si, essa discussão não chega aos meios de decisão, e não forma a realidade. Estará pobre a cultura democrática quando não tivermos serventia para lhe dar, quando nos fecharmos única e exclusivamente nas barreiras do conforto, mesmo que seja um conforto algo forçado e empobrecedor.

  Se assim for, de forma continuada, arriscamo-nos a deixar o sistema democrático perder o interesse para outras formas de governação mais autónomas em relação às vontades e opiniões individuais e colectivas - mais absolutistas.

  Se desejamos afastar essa possibilidade, é altamente aconselhável que defendamos a democracia enquanto sistema governativo, dando voz às nossas interpretações do mundo e participando mais activamente na vida, onde quer que seja que ela se desenrole. 

Luís Campos
nº3 na lista à freguesia da cidade de Santarém